Primeira Fase – agosto/outubro

Encontro e intervenção para falar da cidade e suas imposições, proibições e perigos dada a violência urbana. Também é um encontro para falar de uma cidade imaginada, desejada e mais humana. Cidade proibida encontra na ação, no movimento, na dança e na poesia formas possíveis para discutir temas complexos de onde vivemos. Cidade proibida canta uma canção de dormir para aqueles que vivem na invisibilidade da noite!  Suzi Weber, bailarina, professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS.
 
“Cidade Proibida” por Di Nardi, ator
Cem vontades proibidas
Inúmeras pessoas escondidas
Depois dos muros da cidadeAntes de romper as barreiras
Durmo na minha cama
Encontro um sonho proibidoPra mim, pode tudo
Resta que tudo passe
Ou nada vai mudar
Inicia por mim
Basta que você me siga
Isso não é fácil
Dói, mas é bomAgora já posso acordar

cidade_proibida (19 de 66)
A cidade de todos os dias, que está esperando meu acordar, que não dorme, que não silencia. Pensar na Cidade Proibida, proi
bida pra quem? A cidade é nossa, seus espaços de convívio devem ser habitados por todas as formas de expressão, mas “na cidade é proibido se expor, o medo torna a cidade proibida”, cidade bandida.
“Olho o mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo… disse o poeta Mário Quintana, amante pouco secreto da cidade de Porto Alegre. Exercício do olhar sobre a cidade, essa que é da gente, onde a gente se levanta diariamente para a vida. O parque da Redenção, me parecia quando eu vinha de Veranópolis com seis ou sete anos,  uma floresta cheia de caminhos, os pedalinhos no lago, as bicicletas pra alugar e maçãs do amor. Depois virou passagem nas rotas do cotidiano, chimarrão no domingo, conversa fora na grama, e hoje com meus colegas estamos fazendo dele espaço de convívio, com a desculpa sem culpa da nossa Arte do teatro, dança, música, circo, palavra, cor! Uma bela desculpa pra sair de casa e ficar ao léu, sentado na grama e olhando o céu. “Quando eu for, um dia desses, poeira ou folha levada, no vento da madrugada, serei um pouco do nada, innvisível, delicioso! “ Marina Mendo, atriz.
O que a cidade é?
O que a cidade não é?
Nessa cidade eu sou feito do quê?
A cidade é feita de encontros e desencontros, mas eu diria que Cidade Proibida

foi um processo sobretudo de encontros.  Encontros na Ramiro Barcelos, Salgado filho, Voluntários da Pátria, Redenção. Encontrar novas pessoas, músicas, atentar para novos cantos da cidade, encontrar memórias individu
ais e coletivas vividas em Porto Alegre.
 Um encontro plural, político e social entre artistas da cidade. Eles somam habilidades, topografias, opiniões, memórias distintas. Corpos de 20, 30, 40 e tantos anos de vida nas cidades. Eles  representam os desejos coletivos daqueles que querem abertas as cercas e porteiras imaginárias (e reais) dos espaços públicos de convívio. Eles transformam junto ao público a Redenção em um espaço de afeto, troca e festividade durante a noite.

Cidade proibida é um convite poético para e com a cidade. Gabriela Chultz, atriz e bailarina.

…o processo criativo…Uma reflexão sobre a cidade que vivemos, enxergamos e queremos. O período de ensaios/construção de cenas se desenvolveu a partir do nosso olhar e nossas atitudes para com a cidade. O que nos comove? O que nos irrita? O que podemos mudar? Do que somos capazes? O que representamos para a cidade? O que a cidade nos representa? Estas foram as principais questões que nortearam e construíram a imersão necessária para refletir e agir enquanto poesia, cena teatro, intervenção, provocação, declaração de amor/ódio.A licença poética construída para esse processo parte do “olhar para si mesmo”. A questão estava em, primeiro, se perceber na cidade, nas suas atitudes, na percepção de que a cidade é você e sua interferência, ativa ou passiva, nos acontecimentos…. a intervenção e o público

Interferir no cotidiano, transgredir regras, desconstruir padrões, provocar novas percepções. A arte enquanto política, enquanto transformação social, enquanto questionamento. Tudo isso parte da iniciativa de apresentar uma intervenção urbana, às 22h no Parque da Redenção em Porto Alegre, que reflete a cidade. Horário esse impróprio para transeuntes, crianças, famílias, tendo em vista o grau de perigo que amedronta as pessoas que frequentam a Redenção neste horário. Entretanto, elas compareceram: famílias, crianças, jovens estudantes, idosos, mendigos, travestis e pipoqueiros.

“CIDADE PROIBIDA” transgrediu o processo criativo, o momento do eu e a cidade, da construção de cena a partir das percepções de cada ator e causou identificação com o público em geral, questionou, despretensiosamente, a cidade que vivemos e a cidade que queremos. A intervenção levou um grande número de pessoas à Redenção e construiu um espaço de compartilhamento, de relações e de afeto com o outro e com o espaço, principalmente com a necessidade do espaço. O espaço público para o público, com a segurança e o prazer de se viver a cidade que se tem. Silvero Pereira, ator

 Proibido e permitido, fracasso e sucesso,vida e morte…As coisas serão sempre uma cobra mordendo o próprio rabo.
Assim é a cidade, existe e se configura pelo que “não é cidade” em volta. Conjunto de regras de covivência, pressupondo uma ética e uma ótica comuns.
Mas ainda feita por indivíduos, para os mesmos, e os mesmos se refazendo dela, do que constroem em volta, de tudo na volta, que de dentro volta… A inevitável revolta.
Re-volver.
O símbolo forte da cidade hoje.Carro, rua ,contrução . Tudo muito veloz. Nada contra a velocidade, mas o tempo do que tem vida, não pode ser extinto. Ou extintos seremos todos, e não haverá cidade, nem nada pra construir.
Tanta bio-coisa proibida, e não tem sido proibido proibir o que permite a coisa Bio.
É certo que eu gosto da cidade, eu gosto da intensidade.Cidade é a intensidade de todo o bio… Mas se a cobra engolir o rabo, nem mais veneno , nem serpente, nem ser.
o processo…
Nunca um processo artístico vem separado da vida. No caso deste, foi puro mergulho pra mim. Difícil dizer que foi difícil, quando a vida parecia impossível.
A Cidade Proibida é a mais pura permissão, prazer, escuta, troca… Não sei, mas desconfio que mergulhar sem medo num assunto difícil seja ele qual for, nos ajuda a decupá-lo em pequenos pedaços até que o que ele possa causar de estranho se dilua, e que o próprio se torne um néctar poderos, nutritivo e revigorante. Já não importa o sabor.
Um presente participar deste processo,estar em processo junto, ver o que sai de si e dos outros, supreender-se , amar a caixinha de surpresa que é o teu vizinho, e o que tu te torna perante o mesmo.
Que a vida se perfume da arte, que a arte nos prepare pra vida e nos divida em tantos pedaços, que a gente não tenha mais com que se pré-ocupar, e finalmente viva.
Que a coisa maior se mantenha presente , se re- presente e á – presente.Roberta Alfaya, acrobata.
Cidade Proibida é refletir  no corpo a cidade em suas muitas dimensões e recortes. Cidade que habito, que me pariu, com todas as suas belezas e defeitos. Mas também é pensar a cidade para além da minha, no plural. Cidade é o outro, e as relações que estabelecemos no tempo e espaço. Quantos trajetos estamos criando no chão da cena, encontrando ou barrando o caminho de corpos que cruzam por nós; proibindo, excluindo, delimitando o viver do outro, mas também amando, acariciando corpos e lugares, tudo ao mesmo tempo. Dar corpo e voz efêmera para o trânsito caótico e ilimitado das metrópoles. Em tempos de convulsão social, o grito da Cidade Proibida que invade o parque da redenção vai estabelecer uma brecha para a convivência e reflexão, um suspiro rústico da cidade. A nossa cidade foi revelada em apresentações na Redenção. O espelho d`água, o chafariz , as árvores e o céu fizeram o papel de cenário natural para as nossas intervenções. Um encontro mágico com colegas de cena e plateia. Suor e cheiro de verde. Estar habitando o parque a noite, me divertindo despreocupadamente com todos os perigos que rondam lugares proibidos me deu uma sensação plena de liberdade, de pertencimento real a cidade. Vontade de estar mais lá, em contato com a natureza, sem as paredes escuras da caixa cênica. Vida longa a todas as cidades proibidas, sempre.Lisandro Bellotto, ator.
Caminhar em uma cidade já conhecida, porém há alguns anos não vista. Uma cidade que me enche de nostalgia e
medo, de euforia e raiva. Escolher um caminho dentre tantos, mirar um rosto dentre tantos. Assim como uma fatia do centro de qualquer grande cidade, éramos a pluralidade. Vários, tão e tão diferentes. Os olhares e abraços que chegavam como um testemunho, mesmo quando escolhiam não chegar. Algo de forte aconteceu durante esses dias, algo quase imperceptível no início, mas que encontrou espaço para nascer diante dos olhos daqueles que disseram sim!Sim para uma nova cidade que nasce em meio a escombros de obras, de fumaça, de prédios, de bicicletas, de semana farroupilha, de donas de casa, de erva-mate, de drags extravagantes, de camisinhas usadas, livros rasgados, rostos cortados. Não foi fácil caminhar numa cidade que se mostra proibida. Não é fácil encarar o olhar que julga, a mão que não se estende, a boca que se retorce. Não é fácil o carinho desses tentáculos da cidade. Grande cidade-mãe-água-viva, acolhendo e queimando a todos com seus longos tentáculos. Aceitar o toque dos tentáculos. Respirar. Buscar a potência do músculo. Correr, saltar, gritar. Levar o olhar para cima, acima das árvores abandonadas, pertinho do cintilar de alguma estrela maloqueira. Respirar.Rossendo Rodrigues, ator.
Cidade Proibida. Ocupação. Do espaço, da noite, das sensações. O outro em mim. O parque em nossos corpos.Que cidade a gente imagina? Tomar banho de rio, colher frutos nas árvores pelas ruas, cruzar com pessoas e não com zumbis. Cidade proibida. A cena e o parque são um só. Patrícia, Carmen, Juan, Silvero, Marina, Rossendo, Di, Gabi, Suzi, Shalako, Mirah, Karine, Batista, Ander, De los Santos, Roberta, Priscila, Lisandro, Paloma, Filipe, eu. E tu. Mirna Spritzer, atriz, doutora e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS.
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